

Travessias
Reflexões sobre Educação
em Contextos de Quarentena e Isolamento Social
Refletindo sobre o rumo que a humanidade precisou
tomar nesta pandemia e dos desdobramentos deste fato na educação pensei muito
sobre a minha caminhada pela escola e como este espaço é vital em nossa
construção humana.
Lembro-me da infância marcada por uma ânsia de
falar, questionar a realidade e meu pai muitas vezes me repreendia: - “você é
muito respondona”... e de fato era, por questionar, requerer direitos,
reivindicar espaços, sempre acreditei que viver era desafiar as circunstâncias,
minhas professoras valorizavam esta característica peculiar.
Minha família? Éramos cinco, meu pai, Paulo Vidal
de Moura, minha mãe, Zenaide Santana Correia e as irmãs, Andreia, a caçula,
Gabriela, a irmã do meio, a que carrega a síndrome do nome eternizada por Jorge
Amado e que virou Modinha para Gabriela por Dorival Caymmi. O meu posto era o da
irmã mais velha, Meu pai era analfabeto, mal escrevia o próprio nome,
minha mãe estudou até a antiga quarta-série e sempre se orgulhou de ter
"alfabetizado" as filhas antes de iniciar a escolarização,
era muitas leituras, contações de histórias, a risca seguindo a velha cartilha
amarelada que ganhou do filho da antiga patroa. Eu acredito que ela foi a minha
principal inspiração pela opção em cursar o magistério e iniciar minha
trajetória pela profissão docente em 1997.
Me remeto sempre ao discurso do Patrono da Educação
Brasileira, o Mestre e Educador Paulo Freire, na entrevista concedida à
revista italiana Terra Nuova , Freire
descreve sua experiência pessoal, sua compreensão sobre o processo de tornar-se
educador, afirmando que: “Ninguém começa a ser educador numa certa terça-feira
às quatro horas da tarde. Ninguém nasce educador ou marcado para ser educador.
A gente se faz educador, na prática e na reflexão sobre a prática”.
Hoje, passados vinte anos de caminhada profissional
na educação, passando pela rede privada, rede pública, da Educação Infantil a
Universidade, eu nunca enfrentei um contexto como atual.
Uma pandemia alastrada pelo planeta colocou a
humanidade no movimento inverso da vida cotidiana, o isolamento em casa, com
exceção dos serviços essenciais e principalmente os profissionais da saúde.
Já a escola precisou fechar as portas para garantir
segurança e saúde a sua comunidade e a população em geral, os decretos
publicados numa sexta-feira, 20 de março de 2020, no Estado da Bahia decretou a
suspensão das aulas na rede pública e privada. As recomendações da Organização
Mundial de Saúde (OMS) para que a curva de contaminação do vírus fosse
controlada evitando um colapso ainda maior como superlotação
dos leitos hospitalares e UTIs foram a quarentena e o isolamento social.
Uma inquietude surgiu, as escolas reuniam-se
virtualmente na tentativa de criação de estratégias remotas para manter o
vínculo com os estudantes, potencializar a atividade cognitiva e fortalecer os
laços entre as famílias e a escola.
As escolas publicas , Secretarias Municipais e
Estaduais de Educação traçaram seus planos de ação considerando que aulas
remotas seria incompatível com a realidade da rede pública visto que, um
percentual significativo de estudantes não teria acesso a internet,
smartphones.
As comunidades rurais, ribeirinhas, periferias, não
poderiam em sua maioria acessar aulas e muito menos criar uma agenda de estudos
paralela muitas vezes, a rotina da fome, da doença, da escassez, da miséria,
violência e morte que assolam e marginalizam as minorias sociais neste
país em pleno século XXI.
As escolas da rede privada então negociaram com as
famílias, algumas suspenderam mensalidades da Educação Infantil, outras
ofereceram descontos de até 80% e criaram alternativas por meio de canais no
youtube, plataformas virtuais e contratos assinados como Google for Education.
Por outro lado, um movimento foi crescendo ao ponto
de plataformas de ensino cujos donos são as grandes multinacionais, que tratam
a educação como mercadoria, espalharem ou melhor, venderem a ideia que “na
crise, toda educação será online,” comercializam pacotes prontos, enlatados, a
lógica do mercado financeiro , assegurar o lucro acima de tudo e de todos,
perpetuando a desigualdade e a exclusão.
Comungo do entendimento que estratégias de
motivação e engajamento são de suma importância para o que for possível
alcançar. A entrega de atividades impressas, apostilas junto com os kits de
alimentação escolar (cestas-básicas) alternativas que emitam ao estudante a
mensagem “ Estamos juntos, nos importamos com vocês, de fato não soltaremos as
mãos, ainda que os laços sejam meramente virtuais.
Acredito que, nada substitui a presença física,
interação, a troca, a sinestesia do olhar, da audição, da criatividade, do
calor humano. Neste momento a nossa melhor estratégia, é a que presa pela
manutenção da saúde biopsicossocial e manutenção da vida.
Superada esta travessia, a pandemia controlada, uma
vacina testada e aprovada, a população imunizada “com fé em Deus”, e a vida nos
oportunizar os encontros, o diálogo olho no olho, a soma dos melhores
afetos e abraços, podemos então juntar as mãos solidárias e os cérebros
criativos para reinventar a vida, os sonhos e as possibilidades, fazendo vivo o
legado freireano, a educação como práxis libertadora, como instrumento de
luta por equidade e justiça social. Portanto, se for possível, fica em casa.
O caminho da resistência assertiva nesta travessia
é a “pedagogia da esperança” no reencontro contínuo da “pedagogia do oprimido”.
Paulo Freire, Presente.
Fabiana Correia Moura, Pedagoga, Mestre em Educação
Científica, Especialista em Direitos Humanos, Neuropsicopedagoga, Palestrante e
Coach Educacional Meu Dever de Casa.

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